O Rappa 'põe dedo na ferida de forma positiva' em novo álbum, diz Falcão


O Rappa (Foto: Divulgação)O Rappa. Da esquerda: Falcão (vocal), Xandão (guitarra), Lobato (teclado) e Lauro (baixo) (Foto: Divulgação)








"Colocar o dedo na ferida de maneira positiva" é a definição de Marcelo Falcão, cantor d'O Rappa, para o trabalho feito pela banda há duas décadas e para o disco novo da banda, que começou a ser apresentado com a música "Anjos", divulgada na segunda (13). O álbum é o primeiro de inéditas desde "7 vezes", de 2008. O nome não está definido, mas a ideia é mostrar que "O Rappa não vai ter fim", diz Falcão ao G1.
Ele diz que a banda "não quer levantar bandeira de projeto", em referência a Marcelo Yuka, ex-membro da banda, envolvido com ONGs e candidato a vice-prefeito do Rio em 2012. O cantor quer passar uma mensagem para as pessoas "acreditarem em si". Ele diz que casos de câncer entre amigos e na família inspiraram a nova música. "Eu vivi altas coisas tristes, mas não consegui escrever uma coisa triste, quero escrever para pessoas dizerem: 'O negão não desiste'", diz Falcão.
Até ao falar sobre a morte de Chorão, do Charlie Brown Jr, Falcão evita o lado negativo. "Uma semana e meia antes de morrer ele me ligou. Eu fiquei chateado, queria poder ter feito alguma coisa, mas pelo telefone não dá para perceber. Era um cara divertido, engraçado. E contar história triste do Chorão não vai rolar, comigo ele sempre foi uma pessoa maneira. Falar mal do cara não rola", diz.
G1 - Porque “Anjos” tem sete minutos? Fizeram versão menor para o rádio?
Marcelo Falcão - Existe uma versão para rádio, mas na real ela já foi feita longa. No disco vai estar longo. O solo no final, as viagens, foi uma ‘vibe’ muito boa. Também enviamos a original, e que a rádio decida. Uma emissora já falou que ia tocar a de sete minutos. A gente até imagina que possa tocar inteira, como “Diário de um detento” [dos Racionais MCs], “Faroeste caboclo” [da Legião Urbana]. Talvez comecem agora com a de quatro minutos, e mais na frente toquem a de sete.
O Rappa tocou clássicos como 'Me Deixa', 'Mar de Gente' e 'Minha Alma' (Foto: Jefferson Bernardes/Preview.com, Divulgação)Xandão e Falcão no Festival Planeta Atlântida 2013
(Foto: Jefferson Bernardes/Preview.com,
Divulgação)
G1 - A música fala de “fé”, de “vinho, pão e reza”. Muitos fãs associaram com religião. Um deles disse em comentário do YouTube “Ateus, durmam com essa”. Foi seu objetivo falar de Deus?
Marcelo Falcão - 
Meu objetivo não era falar de religião, e sim de fé. Procuro conhecer várias religiões, e o fundamento de todas é ter fé. Não tenho nada contra quem tem religião. Mas a mensagem era de acreditar em si. Sou um cara que acredita nas coisas. Vi dois amigos meus, que são pais de duas meninas, terem câncer nos testículos e acreditarem em algo que era cura deles. Estou vivendo um momento assim na minha família, minha tia mais nova está fazendo quimioterapia.  Eu vivi altas coisas tristes, mas não consegui escrever uma coisa triste, quero escrever para pessoas dizerem: “O negão não desiste”.
Uma semana e meia antes de morrer o Chorão me ligou. Fiquei chateado, queria poder ter feito alguma coisa."
Marcelo Falcão, cantor
G1 - Vocês fizeram homenagem ao Chorão em shows. A morte dele te abalou ou te inspirou para escrever algo desse disco?
Marcelo Falcão - 
Eu já tinha a maioria das coisas para o disco quando ele morreu. Mas de seis, sete anos para cá, estávamos muito amigos. Uma semana e meia antes de morrer ele me ligou. Eu fiquei chateado, queria poder ter feito alguma coisa, mas pelo telefone não dá para perceber. Tenho conversado com o Champignon, lembramos como eu era um exemplo de trabalho para o Chorão. Eu botei pilha para o Chorão chamar ele e os outros de volta para a banda. E eu fiquei muito orgulhoso disso. Ele tocou algumas coisas com o Loucomotivos, meu projeto paralelo, felizão da vida. Era um cara divertido, engraçado. E contar história triste do Chorão não vai rolar, comigo ele sempre foi uma pessoa maneira. Falar mal do cara não rola.
G1 - O que a música nova revela sobre o disco? Vai ser mais roqueiro, com faixas longas?
Marcelo Falcão -
 O disco é um “pé na porta”. Mas tem altas coisas completamente diferentes de “Anjos”. As músicas são todas para cima. Até as mais sinistras. Tem uma chamada “Sequencia terminal”, que lembra bateria de John Bonham [falecido músico doLed Zeppelin]. É pesada, densa, mas não deixa de ser mensagem, ter “vibe”. Tem uma música sobre um amigo antigo, que foi um dos maiores traficantes de todos os tipos de droga. Ele passou 11 anos na cadeia e hoje sempre pregapara todo mundo como é bom estar livre. O Rappa sempre teve um carinho, respeito com poesia, com palavras, melodia.
G1 - Você já pensou em desistir da banda?
Marcelo Falcão -
 A gente ficou um ano e oito meses afastados, teoricamente de férias. Tivemos 19 anos só com o Rappa. Era necessário acontecer a pausa e foi bom ter acontecido. Então, quando rolou o rompimento, fomos conversar. Resolvi falar com o Xandão [guitarrista da banda]. Confiamos poderes a algumas pessoas que nos deixaram em situações ruins. Conversamos e resgatamos as coisas antigas, foi bom. E agora voltamos para os fãs. Para pessoas que sabem que o nosso trabalho é enfiar o dedo na ferida de uma forma positiva.
O Yuka até hoje ganha um pedaço da grana d’O Rappa e ainda fica falando mal da gente. As pessoas que mais o ajudaram fomos nós quatro. Mas a gente desiste das pessoas, de quem não tem fé. É impossível ajudar quem não quer ser ajudado."
Marcelo Falcão, cantor
G1 - Tentou retomar o contato com oMarcelo Yuka?
Marcelo Falcão -
 O que posso falar é essa frase: quem está aqui nunca pensou em nada que não fosse música. Não queremos levantar bandeira de projeto. Durante muitos anos, até hoje, tem pessoas que ficam se fazendo de coitadas. O Yuka até hoje ganha um pedaço da grana d’O Rappa e ainda fica falando mal da gente. As pessoas que mais o ajudaram fomos nós quatro. Mas a gente desiste das pessoas, de quem não tem fé. É impossível ajudar que não quer ser ajudado. As músicas [do Rappa] foram todas eu ele [Yuka] que fizemos juntos. Até hoje quero ouvir sucesso novo do Yuka. Acho injusto o que ele fala. A galera aqui cansou. O Yuka é padrinho da filha do Xandão, e não visitou mais a menina. Eu até hoje gosto dele. Mas penso igual à banda.
G1 - Você votou no Yuka pra vice-prefeito do Rio?
Marcelo Falcão -
 Para mim, o que vale é o futuro, o passado já foi. Fazer filme falando mal, criar polemicazinha é feio, injusto. Ainda mais na situação em que ele está. A gente não era Vitória Régia e ele Tim Maia. Se essa diretora que fez o documentário [“Marcelo Yuka no caminho das setas”] fosse educada, como fomos com ela, botaria na íntegra no YouTube o que cada um do Rappa falou ao filme.
G1 - Já fecharam um nome para o disco?
Marcelo Falcão -
 Sexta-feira vamos bater o martelo. Tem dois nomes na briga, que dão a real ideia de que O Rappa nunca tem fim. Essa parada de desistir não existe.
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