FESTIVAL MÚSICA NA IBIAPABA - Em cima da hora.

Secult, nova gestora do evento (em plena edição de 10 anos), corre para licitar uma produtora cultural. Vai dar tempo?

Registros de edições anteriores do Festival Música na Ibiapaba, que acontece anualmente em Viçosa do Ceará e beneficia mil estudantes de música. O festival oferece cursos com músicos profissionais e apresentações à noite

Voltado à formação e ao fomento da música brasileira no Ceará, o Festival Música na Ibiapaba é considerado um dos maiores espaços cearenses de estudo da música, abrigando anualmente mil jovens e adultos na cidade de Viçosa do Ceará (distante cerca de 350km da capital). Em uma semana, o festival oferece oficinas de canto e de instrumentos, além de apresentações musicais todas as noites.

Durante toda a história do evento, realizado por nove anos, o Instituto de Arte e Cultura do Ceará foi responsável por sua organização. Este ano, no entanto, após deliberações da Secretaria de Cultura do Estado, o festival passa a ser gerido pela pasta.

Na manhã da última quinta-feira, dia 6, o evento foi confirmado entre os dias 26 de julho e 3 de agosto. Empresa que deverá produzi-lo, no entanto, ainda não foi licitada.

Edital
Em 26 de março, a Secult lançou um primeiro edital de "Realização em Atividades Culturais em Projetos", a fim de licitar produtoras culturais para a elaboração de diversos projetos ligados à pasta, entre eles o Festival de Música na Ibiapaba. O chamamento, no entanto, "não apresentou projeto que fosse classificado", segundo seu próprio texto.

Maria Amélia Mamede, da Via de Comunicação, foi uma das produtoras que pensou em encaminhar um projeto, mas desistiu ao ler o edital. "O recurso que tinha nesse edital talvez fosse até suficiente. O problema é que, para realizar um evento, são necessários outros itens, como som, iluminação, passagens, hospedagens... Nada disso constava no edital, eles sequer disseram quantos alunos pretendiam atender, para que pudéssemos orçar as apostilas. Então, ficou difícil", relata.

Segundo Amélia, um outro ponto conflitante é o prazo. "Acho que é um tempo muito curto para poder realizar com calma, para ter um padrão de qualidade", explica.

Produção
Vânia Cavalcante, diretora da Indica Serviços de Comunicação e Eventos, responsável por todas as edições anteriores do festival, compreende a desconfiança da Via de Comunicação. Para ela, o modo como o edital foi feito só reforça a inexperiência de quem o elaborou. "Não é nem apenas pela verba, já que eles dizem que a empresa pode captar via lei de incentivo se precisar, mas é principalmente o formato. Do jeito que está não corresponde à realidade do evento. Nenhuma empresa foi habilitada porque não há como fazer um projeto seguindo esse edital", afirma.

E também pontua o problema do prazo: "Mesmo que eles consigam uma empresa, não vai dar tempo de fazer uma seleção criteriosa. Isso é uma coisa muito séria, já que, usualmente, não fazemos audição com os inscritos. Mesmo assim, nós ligávamos para eles, tentávamos confirmar as informações. E isso leva tempo".

De acordo com a produtora, durante as outras edições, a pré-produção começava ao fim do mês de março, quando se fazia uma primeira viagem para mapear as escolas que seriam usadas como salas das oficinas. "Era o momento em que víamos as condições técnicas de cada uma delas. A partir daí, fazíamos viagens a Viçosa todo mês", explica.

Outro trabalho de pré-produção é feito para garantir hospedagem. "A cidade é muito pobre de leitos, então precisa-se contar com as casas alugadas. É dever da empresa fazer esse mapeamento também", acrescenta.

Além disso, existem ainda as atribuições pedagógicas, foco principal do evento. É preciso entrar em contato com professores, acordar passagens, montar as ementas dos cursos, elaborar apostilas, entre outros. "Nós, que temos experiência, começávamos em março para garantir tudo certo em julho. Como uma empresa vai conseguir, pela primeira vez, fechar esse evento em um mês?", questiona Vânia Cavalcante.

Quanto aos custos do festival, a diretora da Indica afirma que, com certo aperto, conseguia-se fechar o orçamento em R$ 400 mil. Para ela, os R$ 236 mil reais disponibilizados só podem ser definidos como "um absurdo".

"É um festival de uma importância... que eu até me emociono quando falo. Acompanhei a profissionalização de muitos alunos através dele. Os músicos, do interior principalmente, precisam dessa semana de formação. Eles puxam o máximo dos professores. E, nesses últimos anos, temos recebido alunos de todo lugar do País e já tivemos estudantes de fora. Agora o que vejo é o perigo de todo esse projeto simplesmente acabar", desabafa a diretora.

"Vai ter que dar"
Fernando Piancó, coordenador de ação cultural da Secult, respondeu pelo projeto. Questionado sobre a transferência de gestão do evento, do IACC para a Secult, Fernando afirmou não saber dos motivos, já que está há apenas um ano na pasta. "Creio que durante a Virada Cultural, a secretaria deliberou e resolveu trazer o projeto para sua responsabilidade", conjecturou.

Segundo Fernando, o formato do festival será o mesmo dos anos anteriores, mas não deu detalhes. Disse apenas que deverão priorizar o aspecto formativo. "O fundamento é a formação. Queremos atender alunos de todo o Ceará, com foco na região da Ibiapaba", afirmou.

Sobre o processo de seleção dos estudantes, o coordenador confessou não ter um parâmetro das edições anteriores. "Quando tivermos a entidade que vai realizar, aí sim vamos conversar com o IACC".

Fernando também não sabia em quanto haviam sido orçados os outros festivais. Informado da média de R$ 400 mil reais, justificou que o valor de aproximadamente R$ 263 mil seria, sim, suficiente porque itens como passagens aéreas, hospedagem, som, iluminação e palco serão licitados à parte. "Uma coisa é o edital, outra coisa é a licitação".

Diante do atraso na escolha da empresa e, agora, da necessidade de uma licitação para materiais, perguntamos a Fernando se o prazo seria suficiente. "Vai dar. Vai ter que dar", respondeu. E ainda afirmou que pretendem aumentar o número de alunos beneficiados.

Alunos fazem manifesto
Insatisfeitos com a falta de mobilização para a produção do evento, estudantes e músicos têm procurado a Secretaria de Cultura do Estado para pedir satisfações. "Entro em contato com a Secult desde o começo de maio e eles falaram que estavam licitando a empresa... Depois começaram a não atender mais, ficam passando de um ramal para o outro", afirma Davi Carvalho. O professor de canto, que participou das duas últimas edições do festival, desistiu de ligar e criou um abaixoassinado online.

"Criamos na terça-feira e, em dois dias, reunimos 191 assinaturas. Com a confirmação do festival pela Secult, na última quinta-feira, passamos a reivindicar a qualidade desta edição: estrutura melhor, aumento da quantidade de alunos atendidos. Por que acontecer a gente agora sabe que vai. A pergunta é: vai ter qualidade?", questiona.

Além da petição pública online, os estudantes de música e profissionais estão organizando um manifesto, que deve acontecer amanhã, às 13h, na Praça do Ferreira. "Quando o evento era organizado pelo Dragão, eles faziam de tudo para que fosse o melhor possível. É só isso que queremos do Estado, que ele faça o melhor possível. Como se pode investir só R$236 mil em um festival de formação e pagar R$600 mil no cachê de uma cantora na inauguração de um hospital?", alfineta o cantor.

Mais informações:
Manifesto em prol do Festival Música na Ibiapaba. Amanhã, dia 11, às 13h, em frente ao prédio da Secult, na Praça do Ferreira

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

(FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE)
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